domingo, 21 de janeiro de 2018

ENTENDENDO O VERBO ENCARNADO - Parte 2



O uso de Logos foi sem duvida a palavra certa para ilustrar a mensagem aos seus ouvintes, não apenas pelo seu aparato bíblico, mas também pelo filosófico de seu publico alvo. O objetivo de João ao utilizar a palavra Logos atinge em cheio os interesses filosóficos do antigo mundo grego, pois essa palavra tinha um tradição rica em seus pensamentos, ao mesmo tempo que era um termo geral para "palavra", "descrição", "explicação" ou "coisa". O filosofo Heráclito (aprox. 535-475 a.C) fez o uso do conceito Logos para o seguinte desígnio:
A razão ou plano divino que coordena um universo em constante mudança.
Heráclito se referia ao princípio orientador de seu mundo em fluxo, onde ninguém pode pisar por duas vezes no mesmo rio. Esta característica, própria das manifestações de toda a natureza, é que controlaria o padrão e a regra de conduta comuns a todas as coisas, característica essa exibida em tudo e em todas as partes, e é sempre uma manifestação da razão. Mas essa lei de transformações jamais sofre alteração. E isso foi chamado por Heráclito de uma espécie de sabedoria, inerente a este mundo. Assim, o Logos, mesmo não sendo nominalmente referido por Heráclito, é a lógica divina responsável pela ordem do universo.


ESTÓICOS

Não apenas Heráclito mas o sentido de Logos foi desenvolvido de maneira mais completa pelos estóicos (Inclusive Paulo discursou perante eles em Atenas At 17: 18). Eles ensinavam que o Universo fora permeado com Logos, conferindo ordem e racionalidade para todas as coisas. Para eles, o Logos seria a razão universal, a força criadora eterna, a energia sustentadora e orientadora, a "alma do mundo". Havia um Logos dentro de cada pessoa (a razão humana) e um Logos que permeava o universo (racionalidade que governava o mundo). Por extensão, o Logos dentro do ser humano capacita-o a agir em harmonia com o Logos do universo, entretanto, pensava-se, aqueles que eram governados por paixões e emoções se haviam separado do Logos universal e se tornado selvagens em seu comportamento. Esse conceito veio a construir a base para o sistema ético estóico.

UMA MENÇÃO DE ARISTÓTELES

O famoso Aristóteles, filosofo grego anterior a Jesus, faz um comentário exclusivamente sobre o Logos, tenha em mente que esse raciocínio faz parte do entendimento do leitor grego ao ler sobre Jesus ser o Logos:
O logos [discurso, razão] é designado para distinguir o benéfico do prejudicial, e assim também o certo do errado. Por isso, diferentemente dos outros animais, é a propriedade distintiva do homem: Que ele somente tem a capacidade de perceber o bem e o mal, o certo e o errado e as outras qualidades. E é a comunicação dessas coisas que faz a família e uma cidade-estado. (Politica, 1253a, traduzido por: Duane Gerrett)

FILON DE ALEXANDRIA

Filon foi um Judeo-helenista nascido em Alexandria (25 a.C) que não via distinção entre as preocupações filosóficas gregas e a revelação cultivada pela tradição judaica, ele foi o primeiro a tentar relacionar um pensamento com o outro. Filon fez um amplo uso do Logos, o princípio de mediação entre Deus e a matéria seria a Razão ou Logos, de natureza divina e universal, no qual estariam comprimidas todas as idéias das coisas finitas, e que teria criado o mundo material, fazendo essas idéias penetrarem na matéria. Sintetizando, para Filon, o Logos poderia ser entendido como:

 - Uma realidade incorpórea;
 - Tem um aspecto imanente, pois o mundo sensível é criado a partir dele;
 - Pode ser entendido como tendo a função de reunir os poderes de Deus, inúmeras expressões da sua atividade;
 - Também pode ser entendido como a fonte dos poderes ilimitados de Deus;
 - Tem o sentido de “Palavra de Deus”;
 - Tem um sentido ético como “Palavra de Deus que guia para o bem”;
 - Por fim, ele entende o Logos como um cosmo inteligível que Deus cria em sua mente para, a partir dela, criar a matéria, ou seja, o mundo físico.

Dessa maneira, ao revelar a si mesmo, Deus poderia ser chamado de Logos; e o Logos, na qualidade de agente revelador de Deus, poderia ser chamado Deus, segue algumas afirmações escritas pelo próprio Filon:

Agora, Bezalel, traduzido, significa Deus em sua sombra. Mas a sombra de Deus é a sua Palavra [Logos], que ele usou como um instrumento quando ele estava fazendo o mundo. E essa sombra, e, por assim dizer, o modelo, é o arquétipo de outras coisas. Pois, como Deus é o próprio modelo do que a imagem que ele tem chamado agora uma sombra, por isso também que a imagem é o modelo de outras coisas, como ele mostrou quando ele começou a dar a lei aos israelitas, e disse: "E fez Deus homem, segundo a imagem de Deus.” (Gn 01:26) como a imagem foi modelado de acordo com Deus e como homem foi modelado de acordo com a imagem, que recebeu, assim, o poder é o caráter do modelo. (Interpretação alegórica III – Filo de Alexandria) 

O que é o homem que foi criado? E como é que o homem parece que foi feito à imagem de Deus? (Gn 2:7). Este homem foi criado como perceptível aos sentidos, e à semelhança de um Ser sensível apenas pelo intelecto; mas o que em relação a sua forma é intelectual e imaterial, é a semelhança do modelo arquetípico quanto à aparência, e ele é a forma do personagem principal; esta é a Palavra [Logos] de Deus, o primeiro princípio de todas as coisas, a espécie original ou a ideia arquetípica, a primeira medida do universo. (Perguntas e Respostas sobre Gênesis, I – Filo de Alexandria).

A FILOSOFIA DE JOÃO

O que João quer dizer quando escreve Jesus como o Logos? Como vimos no estudo anterior, a ligação com várias outras passagens bíblicas é fundamental: Logos é aquele pelo qual todas as coisas foram feitas (Jo 1: 3) mas um leitor grego bem instruído poderia dar uma aplicação secundaria ao termo. A Verdade, o Principio orientador do Universo e da alma de todo ser humano, não uma simples abstração da racionalidade teórica, não uma coisa, MAS ALGUÉM. Por esse alguém, o Jesus, o Logos encarnado, o indivíduo pode chegar a harmonia com Deus e com sua criação.

Ainda que João tenha pego emprestado um termo famoso da filosofia grega, ele atribuiu valores únicos e originais ao Logos, valores esses que ele não empresta a ninguém. Para João, o Logos é uma personalidade divina, que embora tenha se encarnado plenamente como homem, é ao mesmo tempo Deus, completamente divino, traz a participação e a perfeita interação dos demais homens com a natureza divina como um elo ligando as naturezas moldando o homem a imagem do Cristo. Aproxima a criatura do criador não de forma superficial como um olhando para o outro, mas de forma cósmica e interpessoal de um adentrando o outro.

Deus e o Logos são inseparáveis. João assimila o fato de cada homem ter a sua palavra, Deus também tem a sua palavra. A palavra do homem esta com o homem assim como a palavra de Deus está com Deus. O homem tem a sua palavra mas no entanto o homem é uma só pessoa! Ninguém pode dizer algo e em seguida afirmar: "Não fui eu quem disse isso, foi a minha palavra". Isso seria ridículo pois o homem e sua palavra são inseparáveis. Para melhor compreensão, num sentido natural dizemos que nós conhecemos as pessoas pelas suas palavras, suas idéias e suas ações, pois estes revelam quem ela é. Assim também, a palavra diz respeito a própria divindade, do próprio ser que é Deus.

ARCHE

Não apenas o Logos, mas quando é dito "No principio" a palavra grega utilizada em "principio" é arche, e como João utilizou um plano de fundo com densos significados filosóficos, podemos estudar qual aplicação filosófica havia o Arche: Platão se utilizou dessa palavra para indicar a força geradora, força originadora ou aquele que começa, que gera. Por essa mesma razão é que Jesus Cristo é referido como o principio da criação de Deus:

E ao anjo da igreja de Laodiceia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio [arche] da criação de Deus. (Apocalipse 3: 14)

Isso significa que Cristo é o agente primário, o iniciador da criação, a força ou energia criadora, e jamais que ele foi a primeira criatura a ser criada.

O seu conhecimento de Logos a esta altura esta quase completo, não perca a terceira parte desse estudo!

Leia a Parte 1 desse estudo clicando aqui, e a Parte 3 clicando aqui.

Referencia: Grande parte desse estudo foi retirado (e depois adaptado) da Bíblia de estudo arqueológico, "Notas históricas e culturais: Logos na literatura grega e judaica", p. 1721, Editora Vida.

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