quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CADA UM MORRERÁ PELO SEU PRÓPRIO PECADO - explicação


Recentemente vi um vídeo onde um rabino tenta desqualificar a messianidade de Jesus através de um texto da Lei, vamos juntos estudar esse texto, sua aplicação e se há ou não relação com o sacrifício vicário do nosso Senhor Jesus:

Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos em lugar dos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado. (Deuteronomio 24: 16)
O que aprendemos com isso? Um pai que possui filhos justos e comete uma infração merecida de pena capital, apenas o pai deve pagar pelo erro, não o pai junto com os filhos. E um filho que comete uma infração deve ir sozinho para cumprir a pena, não o pai junto com ele, pois aqueles que merecem morrer deverão ser executados por seus próprios crimes, Jeremias e Ezequiel discorre um pouco sobre essa lei:

Havia um provérbio durante o exílio dos judeus na Babilônia que dizia o seguinte: "Os pais comeram uvas verdes, mas foi os dentes dos filhos que se mancharam". O povo de Jerusalém e os exilados estavam se queixando de que era injusto sofrer pelos pecados de seus pais, Jeremias fala a respeito disso trazendo uma mensagem de edificação e plantio, falando sobre o reagrupamento das nações, numa terra que passou pelo período de correção:

"Virão dias", diz o Senhor, "em que semearei na comunidade de Israel e na comunidade de Judá homens e animais. Assim como os vigiei para arrancar e despedaçar, para derrubar, destruir e trazer a desgraça, também os vigiarei para edificar e plantar", declara o Senhor. "Naqueles dias não se dirá mais: ‘Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se mancharam’. Ao contrário, cada um morrerá por causa do seu próprio pecado. Os dentes de todo aquele que comer uvas verdes se mancharam. (Jeremias 31: 27-30)
Em Ezequiel 18, no capitulo inteiro, o profeta explica essa lei e refuta esse mesmo provérbio, meu querido leitor, pratique a sua leitura bíblica, eu realmente queria separar um ou dois versículos desse capitulo mas ele inteiro é útil para esse tema e ele sozinho explica com exemplos essa lei, não deixe de meditar nas palavras dele.

A CONTRADIÇÃO

Quem aplica essa lei de regulamentações civis para práticas espirituais cai em contradição com as próprias escrituras. Não é na Torá que animais eram sacrificados para expiação dos pecados do povo? Não deveriam penalizar o transgressor no lugar do animal?
Mas ainda assim, para que não fique nas nossas palavras, o profeta Isaías coloca o Rabino ou o defensor dessa teoria de "saias ainda mais justas":

Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças, contudo nós o consideramos castigado por Deus, por ele atingido e afligido. Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. 
Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu própriocaminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca. Com julgamento opressivo ele foi levado. E quem pode falar dos seus descendentes? Pois ele foi eliminado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado. Foi-lhe dado um túmulo com os ímpios, e com os ricos em sua morte, embora não tivesse cometido qualquer violência nem houvesse qualquer mentira em sua boca. (Isaías 53: 4-9)

Os judeus hoje identificam o servo sofredor dessa passagem como o próprio Israel, sabemos que é o Messias, porém, nas duas interpretações temos um alguém sofrendo no lugar de outro, um justo sofrendo por injustos, caindo por terra a aplicação profética para a lei de Moisés.

Os judeus de hoje (devido ao cristianismo) "alteraram" seus conceitos proféticos para que Jesus não cumpra as profecias, a citação acima, onde eles dizem que o Servo sofredor era Israel é um exemplo, mas não foi sempre assim, a tradição judaica sabia que o servo sofredor traria perdão, era um remissor:

Quando o Eterno deseja trazer cura ao mundo, ele fere um representante tsadik (justo) dentre eles com aflições e sofrimentos, e através deste justo traz a cura para todos, como está escrito: mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades e pelas suas pisaduras fomos sarados (Isaías 53:5). Um tsadik nunca é atingido, a não ser para trazer a cura para a sua geração e para fazer expiação por ela. (Zohar; seção 3, pg 218)

Rebbe Nachman de Breslov, neto do Rabino Yisrael ben Eliezer, o Baal Shem Tov, escreveu sobre o efeito expiatório do sofrimento de um tsadik [justo] em Likutey Moharan II, 8.6: “Saiba que, por vezes, o perdão dos pecados acontece pelo mérito coletivo da comunidade, há porém, momentos em que os membros da comunidade não são suficientemente dignos de terem seus pecados perdoados em seus próprios méritos. O tsadik [justo] é então obrigado a comprometer-se a sofrer por causa do povo de Israel. “certamente ele levou as nossas doenças e carregou as nossas dores”. (Isaías 53:4). A comunidade em geral é salva do sofrimento e da doença, mas não o tsadik [justo], porque ele comprometeu-se a sofrer em nome de todo o povo de Israel.

Se considerarmos nos dias de hoje a punição no sentido jurídico e policial, não fica muito bem aplicável. Por outro lado, se pensarmos em uma dívida, faz bastante sentido que uma pessoa que tenha algum recurso salde essa divida no lugar daquela que não disponha de recurso nenhum. Ou, se entendermos a expressão "cumprir a pena", não no sentido de ser punido, mas no sentido geral de "pagar a conta" e "assumir a culpa". Faz sentido que um bom amigo tire o outro do aperto, assim como faz sentido que um Pai celeste, que possui todos os recursos, recursos ilimitados, ajude filhos que não possuem recursos nenhum e que estão passando por apuros mortais.

A APLICAÇÃO PRÁTICA DA LEI

Historicamente temos essa lei sendo aplicada em seus dois aspectos. Quando os filhos são justos e inocentes, acabam poupados:

Amazias tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e reinou vinte e nove anos em Jerusalém. O nome de sua mãe era Jeoadã; ela era de Jerusalém. Ele fez o que o Senhor aprova, mas não de todo o coração. Quando sentiu que tinha o reino sob pleno controle, mandou executar os oficiais que haviam assassinado o rei, seu pai. Contudo, não matou os filhos dos assassinos, de acordo com o que está escrito na Lei, no livro de Moisés, onde o Senhor ordenou: "Os pais não morrerão no lugar dos filhos, nem os filhos no lugar dos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado". (2 Cronicas 25: 1-4)

 Quando os filhos são cúmplices do erro, recebem o julgamento junto com o criminoso:

Então Josué disse a Acã: "Meu filho, para a glória do Senhor, o Deus de Israel, diga a verdade. Conte-me o que você fez; não me esconda nada". Acã respondeu: "É verdade que pequei contra o Senhor, contra o Deus de Israel. O que fiz foi o seguinte: Quando vi entre os despojos uma bela capa feita na Babilônia, dois quilos e quatrocentos gramas de prata e uma barra de ouro de seiscentos gramas, eu os cobicei e me apossei deles. Estão escondidos no chão da minha tenda, com a prata por baixo" (...) Então Josué, junto com todo o Israel, levou Acã, bisneto de Zerá, e a prata, a capa, a barra de ouro, seus filhos e filhas, seus bois, seus jumentos, suas ovelhas, sua tenda e tudo o que lhe pertencia, ao vale de Acor. Disse Josué: "Por que você nos causou esta desgraça? Hoje o Senhor lhe causará desgraça". E todo o Israel o apedrejou, e depois apedrejou também os seus, e os queimou no fogo. (Josué 7: 19-21; 24-25)

Acho que até aqui vemos que o objetivo desse mandamento não tem divergência nenhuma com o sacrifício de Jesus, pois a aplicação de um é a do senso individual perante a Lei, enquanto a de outro é perante Deus. Podemos espiritualizar essa lei com aquela máxima bastante conhecida pelos cristãos: "a salvação é individual", não vejo como exceder isso sem cair em contradições ou fantasias.

CONTESTAÇÃO A ALEGAÇÃO DO JUDAÍSMO MODERNO DE QUE UM JUSTO NÃO PODE MORRER PELOS INJUSTOS

Os judeus modernos fecham os olhos para o servo sofredor e dizem que esse conceito de expiação, onde um morre em favor de outro, é uma invenção romana que não está presente nas escrituras. Para contra-argumentar isso, vou mostrar com as tradições antigas dos judeus históricos que esse pensamento é muito mais antigo do que o cristianismo:

“Será que a imposição da mão (na cabeça do animal) faz expiação (kapará)? Não. A expiação (kapará) vem através do sangue, como está escrito: ‘Pois é o sangue que faz expiação (kapará) em favor da vida”. (Talmud Bavli, Massechet Yomá 5a)

”Certamente a expiação (kapará) só pode ser feita com sangue, como ele diz: Pois é o sangue que fará expiação (kapará) em virtude da vida”. (Massechet Zevachim 6a)


No tratado Sanhedrin 39a, o Talmud Bavli fala da resposta do Rabbi Abahu a um escarnecedor que lhe disse o seguinte:
“Seu Deus é um brincalhão... Porque Ele fez o profeta Ezequiel deitar-se sobre seu lado esquerdo por 390 dias e depois sobre seu lado direito por 40 dias".
Rabbi Abahu respondeu:
"Quando uma nação se rebela contra seu rei, se este for cruel, ele matará a todos; se ele for misericordioso, matará metade deles; se ele estiver cheio de misericórdia, ele fará com que os principais dentre eles sofram, poupando a maioria. Assim também o Eterno castigou Ezequiel para apagar os pecados de Israel.”

O meu amado é para mim como um cacho de henna (kofer). O cacho refere-se a Isaque, que estava amarrado no altar como um cacho de henna (kofer), porque ele expia (kapar) as iniqüidades de Israel. (Midrash Shir HaShirim Rabbah 1.14.1)

Moisés disse ao Eterno: Chegará o tempo em que Israel não terá um Templo ou Tabernáculo. Então, o que acontecerá com eles? O Eterno respondeu: Eu tomarei um de seus justos, e o manterei como penhor (garantia) por vós, a fim de que eu possa perdoar todos os seus pecados. (Shemot Rabbah 35:4)

No livro: “Trust-me: A Anthology of Emunah and Bitachon.” dos Rabinos Eliezer Parkoff e Eliezer Linas,( publicado pela Feldheim Publishers, 2002), lemos o seguinte:
“A opinião de Rabbi Elazar é que... Assim como o agricultor coloca o jugo somente no boi, que pode arcar com o ônus, assim também o Eterno coloca o ônus da punição pelas transgressões do mundo sobre o tsadik (o justo representante). Isto serve para proteger o mundo, ao expiar transgressões, mesmo que nós não possamos compreender plenamente como isso funciona."

No livro: “Expiação na morte de um Tsadik.” (Rabbi Elchanan Lewis), lemos o seguinte:
Pergunta: Como pode a morte de um tsadik [justo] tornar-se expiação?
Resposta: O tsadik [o justo] não é simplesmente uma pessoa, um indivíduo que tem impacto apenas em si mesmo; ele é uma personalidade corporativa, uma figura publica que afeta a todos aqueles que estão ao seu redor; a perda de um tsadik [justo] é, portanto, uma perda pública e não apenas a perda de um indivíduo ou de uma única família. Os tsadkim (justos) não aqui para si mesmos, mas para os outros. Esta é a forma como eles vivem e é assim que eles também morrem. Assim como a morte serve como expiação daquele que falece, a morte de um tsadik [justo] faz “kaparah” [expiação] para toda sua comunidade.

Quando o seu corpo estava sendo queimado, prestes a morrer, ele [Eleazar] ergueu os olhos ao Eterno e disse: Tu sabes, ó Eterno, que embora eu pudesse ter salvo a mim mesmo, eu estou sendo assassinado por causa da Lei. Tenha misericórdia do teu povo Israel e aceite nosso castigo como expiação por eles. Permita que o meu sangue faça kapará [expiação/purificação] por eles, e leve a minha vida em troca da deles. (IV Macabeus 6:26-29).

E estes homens, portanto, depois de terem dado a vida (...) Através de suas mortes nossa nação foi purificada, tendo eles se tornado uma expiação pelos pecados de nossa nação; e por meio do sangue destes homens justos e piedosos e da expiação pelas suas mortes o Senhor salvou Israel. (IV Macabeus 17:21-22)

Daí o Tasdik (o justo) é verdadeiramente ele mesmo uma oferta de expiação. Mas quem não é justo é desqualificado como oferta em razão do defeito que sofre, e é, portanto, como os animais defeituosos, dos quais está escrito: Eles não serão aceitos por ti. (Levítico 22:25). É por isso que os tsadkim (justos) são sacrifício e expiação pelos pecados do mundo. (Zohar; seção 1 pg 65)

Nós aprendemos que, enquanto Israel está em cativeiro não pode trazer ofertas, a menção dos filhos de Aarão seria sua expiação. Por isso temos aprendido que Avihu e Nadav foram iguais aos seus dois irmãoe Eleazar e Ithamar, para que juntos, fossem reconhecidos como os setenta anciãos que estavam associados com Moisés, por isso suas mortes foram expiação por Israel. (Zohar; seção 3 pg 56).

Os antigos sábios têm opiniões divididas sobre Jó. Alguns mantêm a opinião de que ele era um tsadik (justo) dos gentios e outros que ele era um tsadik (justo) de Israel, que foi ferido para fazer expiação pelos pecados do mundo. (Zohar; Seção 3, pg 231)

Toda vez que os tsadiqim (justos) são retirados do mundo, a sentença é retirada do mundo, e a morte dos justos traz expiação (reparação, indenização, compensação) pelo pecado da geração. (Parashá Acharê Mot)

Rabí Amí disse: Que assim como da novilha vermelha se adquire kapará (expiação), também da morte dos justos se obtém kapará (expiação). Pelo fato de que aquele que lança a cinza fica impuro e aquele que recebe se purifica. (Tratado de Moed Kattan daf 28a)

Toda a congregação dos filhos de Israel vieram ao deserto de Zim…” (Nm 20:1). Rabí Yehudá disse: “Por que o trecho que fala sobre as leis da novilha vermelha (Parah Adumah) aparece próximo ao da morte de Miriam? A explicação já foi dada. Sendo assim, visto que a sentença foi executada sobre esta vaca com objetivo de purificar o impuro, o juízo foi executado sobre Miriam com o propósito de purificar o mundo, visto que a morte do justo expia pelo mundo (Hasulam), e ela partiu desse mundo. O poço que acompanhou os filhos de Israel no deserto foi embora. E o poço de todos desapareceu”.(Zohar Parashá Chukat parágrafo 35)

Temos aprendido Rabbi Eleazar disse: “Foi estabelecido a leitura desse trecho que fala sobre a morte dos filhos de Aarão no dia de Yom Kippur para trazer expiação para Israel no exílio (os quais estão impossibilitados de oferecerem sacrifícios). Por este razão, a sequência dos sacrifícios para este dia (de Kippur), foi colocada aqui na porção (que fala) sobre os filhos de Aarão, além disso a morte dos filhos de Aarão faz expiação (indenização, reparação) pelos filhos de Israel”. (Zohar Parashá Acharê Mot Parágrafo 28)

E o Senhor disse ao anjo que destruiu o povo: É suficiente. Rabbi Eleazar disse: O Santo, Bendito seja Ele, disse ao anjo: Leve um rav (grande; homem virtuoso) dentre eles, pois através de sua morte muitos pecados serão expiados. (Berachot 62 b)

Com essa vasta argumentação histórica judaica (não cristã, algumas anteriores ao cristianismo) vemos que o conceito de expiação sempre esteve enraizada na cultura hebraica. Para finalizar, vou deixar o versículo inicial numa tradução que não deixa duvidas sobre seu real significado:

Os pais não serão executados por causa do pecado dos filhos, nem os filhos por causa do pecado dos pais. Aqueles que merecem morrer deverão ser executados por causa de seus próprios crimes. (Deuteronomio 24: 16 NVT) 

Nesse artigo me ocupei apenas na correta interpretação desta passagem, futuramente posso fazer um artigo de como a morte do nosso Senhor nos salva, tendo em vista que esse tema é bastante extenso, não quero deixar esse estudo ainda maior desnecessariamente. Para crescer em conhecimento, considere ler o que os autores neo-testamentários dizem sobre o sacrifício do nosso Senhor.

Paz a todos, em nome de Jesus.

Sem comentários:

Enviar um comentário