Você entende que há algo errado com a Santa Ceia que é celebrada hoje nas igrejas quando faz um raciocínio e conclui: Ela não ajuda em nada a lembrar da morte do nosso Senhor. O pão, o vinho, os gestos, nada disso ajuda a lembrar da morte do Senhor. Uma cruz ou um crucifixo, um teatro das cenas do sacrifício, uma canção, uma pregação a respeito, outras coisas ajudariam a lembrar daquela morte. A celebração da ceia não ajuda em nada.
Tudo bem que a cor do vinho pode até lembrar a do sangue, e que o partir do pão pode evocar vagamente a morte do próprio Cristo, mas a celebração em si não ajuda. Nós só nos lembramos da morte do Senhor durante a celebração se nos esforçarmos para isso, ou quando a liturgia menciona esse fato, ou porque fomos ensinado a associar as duas idéias, porque elas não se associam naturalmente.
Não vou me ocupar a falar de onde veio a Ceia que se encontra hoje, se foi um sincretismo ou algo do tipo, mas os discípulos do século primeiro não se comportavam desse jeito, para os primeiros cristãos a ceia do Senhor era uma refeição festiva, a ceia hoje é carregada de um humor tenebroso, um ar melancólico e ameaçador invade a igreja e obriga os cristãos a se observar, sob pena de não ser salvo, caso participe de forma indigna, no decorrer do estudo você verá que as coisas não são bem assim.
A CEIA NOS ESCRITOS DE PAULO PARA OS CORÍNTIOS
Paulo da indícios de como era essa celebração na sua advertência para os erros que os Coríntios cometiam:
Nisto [na celebração da ceia], porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor [Isso que vocês estão fazendo quando se reúnem não é a celebração da ceia, vocês estão fazendo errado]. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. (1 Coríntios 11: 17-22)
Hoje celebra-se a ceia com um copinho com suco de uva, e um pedacinho de pão, de que forma essa Ceia acabaria com a fome de alguém? Ou de que forma essa ceia deixaria alguém embriagado? Segundo a tradição, a igreja de Coríntio separa os ricos dos pobres, e dava verdadeiros banquetes para os mais ricos enquanto os pobres, "os que nada têm" (v22, talvez aquela seria a única refeição de verdade na semana) eram envergonhados. Esse foi o pecado da igreja de Coríntio, isso que estava levando eles a condenação, é isso que Paulo chama de ceiar indignamente:
Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros. Mas, se algum tiver fome, coma em casa, para que não vos ajunteis para juízo. Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for ter convosco. (1 Coríntios 11: 27-34)
Paulo faz menção da Ultima Ceia, comer o pão e beber o cálice, essa menção não diz respeito da ceia que os coríntios faziam, pois A CEIA DOS CORÍNTIOS SACIAVAM A FOME, tanto que os gulosos deveriam aquietar a ansiedade de partir para cima dos alimentos e esperar pelos outros, os que podiam (mais ricos) comiam em casa para os que passavam por necessidade terem uma boa refeição.
Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. (1 Coríntios 11: 23-26)
Perceba, Jesus tomou, abençoou, partiu e deu, fez isso com a comida e com a bebida, para os discípulos e para o traidor, ESSA É A OBRA QUE NOS FAZ LEMBRAR DO SACRIFÍCIO, isso que devemos fazer em memoria Dele, Jesus dividiu a vida Dele por nós, permitiu que sua carne fosse mutilada e seu sangue derramado por amor a nós, morreu e ressuscitou. Jesus nos garante que se fizermos o que Ele fez, dividirmos o pouco que temos com os que precisam, Ele nos garante que se participar-mos desse sacrifício junto com Ele, também participaremos de Sua ressurreição!
Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. (João 6: 53-56)
Aqui Jesus antecipa o ensinamento da Ultima Ceia, comer sua carne tem a ver com comunhão, significa ter Jesus habitando em nós, e beber o sangue também tem a a ver com comunhão. Da mesma forma que Jesus habita em nós, se compartilharmos com os outros teremos a comunhão uns com os outros do corpo de Cristo! Veja como é exatamente esse o pensamento de Paulo:
Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão. (1 Coríntios 10: 16-17)
A passagem da ceia é narrada nos evangelhos sinóticos, não vou fazer a citação para que o estudo não fique muito grande, também não vou cita-los pois a menção de Paulo foi o suficiente para passar a mensagem, faça a lição-de-casa e medite neles (Mt 26: 20-30; Mc 14: 17-26; Lc 22: 14-30).
A FESTA DO AMOR NA IGREJA PRIMITIVA
Compartilhar refeições era parte crucial da igreja primitiva, Jesus estabeleceu um exemplo ao receber com prazer a comunhão da mesa todos os que chegassem. A igreja primitiva continuou com essa prática, e os membros sempre se reuniam nos lares aparentemente uma vez por semana para compartilhar alimentos, a igreja era famosa por "partir o pão" e ajudar os que precisavam, sempre lembrando nessa refeição a obra e os ensinamentos do Senhor Jesus durante seus dias na terra, era um poderoso evangelismo combinado com obra comunitária:
E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.
E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar. (Atos 2: 42-47)
Enquanto a igreja de Coríntios tinha bêbados, gulosos, arrogantes e divisões, o principio da igreja aproveitou muito bem as praticas da celebração, trazendo muitos para o evangelho, com a comunhão cada um entendia a necessidade do outro e se prontificava em ajudar, essa festa recebeu o nome de "festa do amor", também chamada de "festa agape" ou "festa fraternal":
E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a prática até à meia-noite. E havia muitas luzes no cenáculo onde estavam juntos. (...) E subindo, e partindo o pão, e comendo, ainda lhes falou largamente até à alvorada; e assim partiu. E levaram vivo o jovem, e ficaram não pouco consolados. (Atos 20: 7-8;11-12)
Como nem tudo são flores, assim como na igreja de Coríntio havia contendas, outras igrejas estavam sofrendo por infiltrações nas celebrações, Judas escreveu sobre os infiltrados nessa festa, chamando-a nominalmente de festa do amor:
Estes [infiltrados, falsos mestres e falsos discípulos, que iam para as celebrações com más intenções], porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem. Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas; Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas. (Judas 10-13)
Temos uma idéia do erro que esses infiltrados cometiam, ao ponto de até as coisas naturalmente intuitivas eles faziam o oposto como animais irracionais, eram manchas infrutíferas, inúteis, causavam apenas dano, etc. Semelhante a Judas, Pedro também adverte contra falsos mestres que se infiltraram nas festas do amor da igreja:
Principalmente os que seguem as vontades imorais da carne e desprezam toda autoridade constituída. Atrevidos e arrogantes! Tais pessoas não têm receio nem mesmo de insultar os gloriosos seres celestiais; todavia, os anjos, embora sendo maiores em força e poder, não pronunciam contra aqueles seres quaisquer acusações difamatórias diante do Senhor. Mas essas pessoas que, à semelhança de animais irracionais, vivem apenas por instinto natural, nascidas para serem caçadas e destruídas, serão corrompidas por sua própria corrupção, recebendo a justa retribuição de sua injustiça. Tais pessoas consideram prazer entregar-se aos mais repugnantes atos de indecência em plena luz do dia. São como nódoas e manchas, regalando-se em manifestar a torpeza de suas paixões mesmo durante as vossas festas de fraternidade. Tendo os olhos cheios de adultério, nunca param de pecar, iludem os incautos e têm o coração habituado à ganância. Malditos! Eles se desviaram, abandonando o Caminho correto e seguindo o rastro de Balaão, filho de Beor, que se apaixonou pelo salário da injustiça, mas em sua transgressão foi repreendido por uma jumenta, um animal mudo que falou com voz humana e refreou a insensatez do profeta. (2 Pedro 2: 10-16 KJA)Os mestres falsos e seus discípulos tiravam proveito das festas de amor para se entregarem ao deboche. É difícil dizer o que ocorria em tais reuniões, além da gula e da embriagues deles. Paulo disse que quando os irmãos de Coríntios se reuniam para participar da festa do amor faziam mais mal do que bem (1 Co 11: 17). Não é impossível que se entregassem a práticas sexuais ilícitas, em imitação às festividades nos templos pagãos. Isso significa que o paganismo penetrara no cristianismo com os seus dois pés. Não admira, pois, que o autor sagrado tivesse atacado tão duramente àqueles supostos líderes cristãos.
Com o passar do tempo, pela dificuldade em administrar a festa do amor, a igreja simplesmente removeu a pratica e manteve os símbolos, perdendo totalmente seu significado, transformou numa liturgia fúnebre e então numa eucaristia.
Alguns pontos acho interessante ressaltar:
- Transubstanciação: Doutrina que diz que o pão se transforma literalmente no corpo e o vinho literalmente no sangue, fazendo do ritual uma teofagia, uma enorme má interpretação das figuras usadas por Jesus, já reveladas acima.
- Não é necessário ser batizado para participar da ceia, vemos que o sentido original é justamente o oposto, até quem não é cristão esta convidado a participar, para que seja feito o evangelismo.
- Nas reuniões da igreja eles utilizavam vinho, alcoólico, e não havia problema nenhum nisso, porém, temos de ser sensatos: existe algum ex alcoólatra na reunião? Então álcool não é bem vindo, a presença do álcool vai escandalizar? Então mais uma vez o álcool não é bem vindo. Para "jogar na garantia", a igreja brevemente (e sabiamente) tirou o álcool das reuniões.
- Devo parar de tomar a ceia na minha igreja? Se você tomar, fará algum mal? Não, então se preocupe mais em que FAZER do que NÃO FAZER. Se você quiser mudar alguma atitude sua a partir do conhecimento que adquiriu com esse estudo, que essa mudança seja a de sair da zona de conforto e ajudar que precisa em nome de Jesus.
- Havia vários itens no jantar para celebrar a ceia, Jesus estrategicamente separou o pão e o vinho por alguns motivos: Ilustrar a carne e o sangue, o corpo e o espírito. Mas o principal foi combinar-se com Melquisedeque (Gn 14: 18; Hb: 7).
MAIS RELATOS DA FESTA DO AMOR NOS PRIMEIROS CRISTÃOS
Para que não fique apenas nas minhas palavras, temos o testemunho de alguns dos primeiros cristãos sobre esse fato:
Mas seu mesmo nome mostra o que são nossos jantares, pois se chamam ágapes, que significa em grego “amor.” Tudo o que nelas se gasta, é em nome e em benefício da caridade, já que com tais refrigérios ajudamos aos indigentes de toda sorte, não aos jactanciosos parasitas que se dão entre vocês (...) Considerem o ordem que nelas se segue, para que vejam seu caráter piedoso: não se admite nelas nada vil ou contrário à temperança. Ninguém se senta à mesa sem ter antes agradado uma oração a Deus. Come-se o que convém para saciar a fome; bebe-se o que convém a homens modestos. Saciam-se tendo apresente que inclusive durante a noite têm de adorar a Deus, e falam tendo apresente que seu Senhor lhes ouve. (Tertuliano 197 d.C.)
Nossos banquetes não só são honestos, senão também sóbrios, pois não nos excedemos na comida nem prolongamos os banquetes bebendo vinho sem mistura, senão que moderamos a alegria com gravidade, por meio de uma conversa casta e de um corpo ainda mais casto. (Marco Minucio Félix 200 d.C.)
Clemente de Alexandria (195 d.C) descreveu o abuso da festa de amor com as seguintes palavras:
Não há limite, entre os homens, para os excessos epicureus. Pois isso os tem levado a carnes adocicadas, a bolos de mel e a pudins de açúcar... Mas nós, que buscamos o pão celestial, precisamos controlar o ventre... Pois ‘os alimentos são para o ventre’, pois deles depende essa vida verdadeiramente carnal e destrutiva; e daí alguns, falando desabridamente, ousam aplicar o nome 'agape' a ceias entristecedoras, que transcendem a sabor e a tempero... Mas a tais entretenimentos o Senhor não chamou de festas de amor. (O Instrutor, II.l)
Espero ter esclarecido todos os pontos sobre a Ceia verdadeiramente Santa, chamada de Festa do Amor, que o Senhor Jesus permaneça te abençoando e te iluminando em nome de Jesus, Amém.

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