quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

ENTENDENDO O VERBO ENCARNADO - Parte 1



A palavra grega que é utilizada para chamar Jesus de Verbo é: Logos. Existem 3 passagens onde Jesus é chamado de Logos, elas são:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1: 1, 14 - ACF)
O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida. (1 João 1: 1 - ACF)
E estava vestido de uma veste salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus. (Apocalipse 19: 13 - ACF)

Pela variedade de palavras usadas na versão ACF (Almeida Corrigida Fiel) já temos a ideia de seu significado: Verbo ou Palavra.


LOGOS E RHEMA

Existem dois termos gregos que se traduzem por "Palavra": Logos e Rhema. Eles se diferenciam apenas quando o Logos é aplicado a Jesus, e essa diferença não é pouca. Ao contrário do que é comumente dito, Logos e Rhema (salvo a excessão citada acima), são exatamente iguais, significam a palavra de Deus viva, a palavra do homem, e também documento, artigo, afimação mensagem etc.

Não vou me apegar a diferença dos termos, mas para que o leitor veja que os sagrados autores não viam diferença entre um e outro, vou deixar um exemplo:

Digo-vos que de toda palavra [Rhema] frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras [Logos], serás justificado e, pelas tuas palavras [Logos], serás condenado. (Mateus 12: 36-37)

Indo agora direto ao ponto, o que significa a passagem de João 1? O que quer dizer essas palavras? para explicar, vamos ler o contexto inteiro:

No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. Ela estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.

Surgiu um homem enviado por Deus, chamado João. Ele veio como testemunha, para testificar acerca da luz, a fim de que por meio dele todos os homens cressem. Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz.

Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos os homens. Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus.

Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade. 

João dá testemunho dele. Ele exclama: "Este é aquele de quem eu falei: Aquele que vem depois de mim é superior a mim, porque já existia antes de mim".
Todos recebemos da sua plenitude, graça sobre graça. Pois a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido. (João 1: 1-18)

CONEXÃO DIRETA COM A CRIAÇÃO

Imediatamente essa passagem nos lembra de Gênesis. Se Moisés começou do principio e foi descendo, como quem trilha numa linha do tempo, João começa nesse mesmo ponto e vai subindo, conduzindo o leitor a uma eternidade que antecede o tempo. Essa alusão ao Gênesis se torna ainda mais nítida quando lembramos que os Judeus chamam esse livro de be reshith, que traduzindo é, literalmente, "No principio". Se voltarmos agora ao principio, como Deus criou o mundo?

Haja luz, haja árvores, haja animais, etc... Para resumir, Deus falou e aquilo aconteceu, criou tudo através da Palavra. Por oito vezes, na narrativa da criação (Gênesis), ocorrem as palavras: ‘e disse Deus’. João reúne todas essas declarações de Deus em uma única declaração, viva e dotada de atividade e inteligência, de onde emanam todas as ordens divinas: Ele descobre, como base de todas as palavras proferidas, a Palavra que Fala.

Pela palavra do Senhor os céus foram feitos; e todo o exército deles pelo fôlego de sua boca. (...) Pois ele falou, e tudo se fez; mandou, e logo tudo apareceu. (Salmos 33:6, 9)
​E disse Deus: Haja luz. E houve luz. (Gênesis 1:3) 

No principio era a Palavra. A palavra não teve um principio, aqui João agrupa a Palavra não no conjunto de coisas criadas, mas no conjunto de coisas que existem antes de qualquer criação. No principio a palavra já estava lá, no principio existia a voz de Deus, a única forma do homem se comunicar com Deus era através da audição. Quando os profetas do antigo testamento falavam com Deus, eles não viam a Deus, eles apenas ouviam a sua voz.

Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente. (Isaías 40:8)  
Assim será minha palavra, que sai da minha boca. Ela não retornará para mim vazia, porém, ela fará acontecer aquilo que eu desejo, e ela prosperará na coisa para a qual eu a enviei. (Isaías 55: 11)   
O Espírito do SENHOR falou por mim, e a sua palavra está na minha boca. (2 Samuel 23: 2)

 A Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. Ninguém via a Deus, mas Ele falava e aquilo acontecia, aquela palavra era Deus, portanto, o Logos é o próprio Deus executando seu plano! Literalmente a auto-expressão de Deus, a maneira de Deus revelar-se. No principio o Logos estava com Deus não como um pessoa distinta mas como a expressão individual do próprio Deus, e na plenitude do tempo Deus colocou carne no Logos, Ele expressou a si mesmo em carne. Pense comigo, o homem é carnal, não é capaz de naturalmente enxergar as coisas espirituais, Deus esta em todos os lugares ao mesmo tempo é imaterial e espiritual, é totalmente eterno e totalmente infinito, é impossível de vermos Ele, é impossível sequer conseguir mentalizar tamanha grandiosidade com a nossa imaginação. Mas Deus, com a sua graça, concentrou todo o que é compreensível de Sí, tudo o que o homem tem a capacidade de interagir, o cerne divino, a máxima de Deus, o LOGOS DE DEUS e veio a terra para nos ensinar numa lição com dores de quem Deus é dentro da capacidade de entendimento humano.


A PALAVRA É A LEI

A citação de Moisés não foi por acaso: A Torah era a palavra de Deus. O decálogo (Dez mandamentos), significa na verdade "As dez palavras de Deus" e é chamado de Palavras da aliança:

Disse mais o SENHOR a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme ao teor destas palavras tenho feito aliança contigo e com Israel. E esteve ali com o SENHOR quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem bebeu água, e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos. (Exodo 34: 27-28)

Deus mostrou a sua glória quando deu a lei a Moisés; e ficou compreendido que ninguém poderia contemplar a Deus e viver, a menos que essa manifestação fosse de natureza um tanto reduzida. Entretanto, em Jesus Cristo, encontramos a viva Palavra de Deus, e a glória é muito mais intensa, apesar de haver sido apresentada de tal maneira que se torna suportável para os homens, a saber, na pessoa de outro homem, o Logos encarnado. O que faltava na lei, que a incapacitava para produzir a retidão, a santificação e o arrependimento, é a nós fornecido em Cristo.

A lista dos Dez mandamentos começa a partir de Exodo 20: 2, pois no versículo 1 vemos um detalhe importante:

Então falou Deus todas essas palavras, dizendo: (Exodo 20: 1)

Deus falou essas palavras, algo pouco comum nas escrituras, geralmente é dito "Eis a palavra do Senhor" ou então "Assim diz o Senhor", mas na introdução das importantíssimas Leis de Moisés é mencionado que o que Deus dirá é a Palavra:

Envia o seu mandamento à terra; a sua palavra corre velozmente. Ele espalha a neve como lã, e esparge a geada como cinza. ​Ele lança o seu gelo em pedaços. Quem pode resistir ao seu frio? ​Manda a sua palavra, e os derrete; faz soprar o vento, e correm as águas. Mostrou a sua palavra a Jacó, as suas leis e decretos a Israel. ​Não fez assim a nenhuma outra nação; não conhecem as suas leis. Louvai ao Senhor. (Salmo 147: 15-20)
Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho. Fiz um juramento e o confirmei, que hei de guardar as tuas justas leis. ​Estou aflitíssimo; preserva a minha vida, ó Senhor, segundo a tua palavra. Aceita, ó Senhor, as oferendas voluntárias da minha boca, e ensina-me as tuas leis.  (Salmo 119: 105-108) 

CITAÇÕES DIRETAS E INDIRETAS DE OUTROS AUTORES NO NOVO TESTAMENTO

Embora não use a palavra Logos, o seu conceito é usado por outros autores bíblicos, não apenas João:

Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. ​Pois nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. ​Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.(Colossenses 1: 15-17)
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, ​que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, ​mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens. (Filipenses 2: 5-7)
Ele é o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder. Havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou se à destra da Majestade nas alturas. (Hebreus 1: 3)

Todos com o mesmo propósito, apresentar o Logos como a representação perfeita do Pai, o visível do que não pode ser visto, o tangível do que não pode ser tocado, o atemporal que se submeteu ao tempo, o criador que se tornou criatura. Todos eles concordando de forma ampla e irrestrita com o depoimento de João sobre o Logos:

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos tocaram, isto proclamamos com respeito ao Verbo da vidapois a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada. ​O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo.
 (1João 1: 3)
Nos exemplos acima Paulo fala do Logos sem menciona-lo nominalmente. João é enfático e usa deliberadamente o Logos aplicando-o diretamente a seu possuidor, Jesus. Outros autores também falam de Logos, mas não são incisivos como João:

Toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. ​Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra [Logos] da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas. (Tiago 1: 17-18)

Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra [Logos] de Deus, viva que permanece para sempre. Porque toda a carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do Senhor permanece para sempre; e esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.(1 Pedro 1:23-25)
Ora, Pedro, Tiago e João falam do cristão sendo gerado de novo, falam da imutabilidade do Deus Eterno aplicada no Logos. Tiago menciona a Luz, a mesma luz que traz paz aos homens no evangelho de João, com toda certeza não é mera coincidência os autores sagrados terem essa harmonia.

ATUAÇÃO DO VERBO NO PERÍODO ESCATOLÓGICO

O título de Logos evoca também uma função de Juiz escatológico:

E ele se inspirará no temor do Senhor. Não julgará pela aparência, nem decidirá com base no que ouviu; mas com retidão julgará os necessitados, com justiça tomará decisões em favor dos pobres. Com suas palavras, como se fossem um cajado, ferirá a terra; com o sopro de sua boca matará os ímpios. (Isaías 11: 4)
Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz. Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos. (Oseias 6: 4-6) 
Vi o céu aberto, e apareceu um cavalo branco. O seu cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e julga e peleja com justiça. Os seus olhos eram como chama de fogo, e sobre a sua cabeça havia muitos diademas. Ele tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo. Estava vestido com um manto salpicado de sangue, e o nome pelo qual se chama é o Verbo de Deus. Seguiam-no os exércitos que estão no céu, em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro. ​Da sua boca saía uma espada afiada, para ferir com ela as nações. Ele as regerá com vara de ferro. Ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-poderoso. ​No manto, sobre a sua coxa tem escrito o nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores. (Apocalipse 19: 11-16)

Dessa forma vemos que João usa sua terminologia favorita Logos em três estratégicos momentos, atribuindo ao Logos a criação, administração, equilíbrio de toda a criação e o seu julgamento final. Esta Palavra é o consumador de todas as coisas, tudo o que tange o homem, toda a regra da criação, todo o propósito do plano divino da mente de Deus, do inicio ao fim esta sob o alcance do Verbo encarnado, o misterioso autor de Hebreus concorda com a atuação do Verbo no dia do acerto de contas:

​Pois a palavra [Logos] de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele. Todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas. (Hebreus 4: 12-13)

No evangelho foi a atuação do Logos no passado, durante a criação. Na sua epístola, o Logos esta no presente, junto com o cristão em comunhão. E no futuro como o justo Juiz.

Fortalecemos a idéia judaica de que o Logos desempenha um papel escatológico ainda maior quando consultamos a literatura apócrifa. Deus se comunicou sempre como o destruidor dos primogênitos do Egito, na décima praga contra o Faraó, a única passagem que pode ser utilizada contra esse conceito é a Ex 12: 23, porém, poderia ser perfeitamente traduzido de uma forma alternativa:

Quando o Senhor passar para ferir os egípcios, verá o sangue na verga da porta e em ambas as ombreiras, e passará aquela porta, e não deixará o destruidor [ou: a destruição] entrar em vossas casas, para vos ferir. (Êxodo 12: 23)
Deus libertou os hebreus com essa ultima praga, simbolizando os cristãos sendo libertos do mundo e partindo para o êxodo celestial no ultimo dia da grande tribulação. Toda essa simbologia se relaciona intimamente com o Logos escatológico no conceito apócrifo. Admitindo que foi realmente Deus quem destruiu os primogênitos, assim como a bíblia afirma e reafirma nos capítulos 11 e 12 de Êxodo.

Embora desacreditassem de tudo por causa de sua magia, quando seus primogênitos morreram eles reconheceram que aquele povo era filho de Deus. Enquanto um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite estava pela metade, a tua palavra todo-poderosa veio do alto do céu, do teu trono real, como guerreiro implacável, e se atirou sobre uma terra condenada ao extermínio. Ela trazia, como espada afiada, a tua ordem sem apelação. Parou e encheu tudo de morte: tocava o céu e caminhava sobre a terra. (Sabedoria de Salomão 18: 13-16)

João usou um vocabulário muito conhecido por seus ouvintes gregos e judeus, e isso é indispensável para entender o que João queria falar, não deixe de ver a Parte 2Parte 3 desse estudo.

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